
A música clássica brasileira alcançou um marco histórico na Europa com a primeira temporada da ópera “Alma”, única criação do gênero do aclamado compositor amazonense Claudio Santoro (1919 -1989). As apresentações ocorreram na lendária Casa de Ópera de Dessau, no leste da Alemanha, um palco de imensa carga simbólica por ter sido inaugurado originalmente pelo regime nazista.
A montagem representou um importante ato de ocupação cultural, desafiando o passado do edifício e o atual crescimento da ultradireita na região, com uma mensagem contundente de memória e direitos humanos.
Classificada pela crítica especializada alemã como uma “música fulminante” e “original”, a partitura de “Alma” foi escrita no fim da vida de Claudio Santoro e sintetiza toda a sua genialidade. Um dos nomes centrais do século XX no Brasil e militante comunista, Santoro viveu exilado na Alemanha durante a década de 1970 para escapar da perseguição da ditadura militar brasileira. Segundo seu filho, Alessandro Santoro, a ópera é uma síntese livre de preconceitos de todos os estilos que o pai explorou, consolidando uma linguagem musical profundamente própria e inventiva.
Baseada na obra homônima do escritor modernista Oswald de Andrade, a trama acompanha a história de Alma, uma mulher vítima de violência em um Brasil marcado por desigualdades, opressão e hipocrisia social. O dramaturgista Yuri Colossale destaca que, embora seja uma produção genuinamente brasileira, o espetáculo aborda o tema universal da violência contra a mulher, o que gerou um forte impacto e fascínio no público local. Para dar vida aos personagens, o elenco internacional enfrentou o desafio de cantar inteiramente em português – caso do tenor greco-australiano Costa Latsos, que precisou aprender cada fonema para se apresentar diante da exigente plateia alemã.
A escolha do teatro alemão para acolher a temporada reforça o papel da arte como ferramenta de resistência. O diretor-geral do Teatro de Dessau, Johannes Weigand, afirmou que o espaço tem a obrigação de dar voz, justamente hoje, ao tipo de música e de teatro que eram proibidos e perseguidos quando o edifício foi inaugurado na era nazista.
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