
A aclamada compositora, pianista e artista multimídia Jocy de Oliveira, integrante da Academia Brasileira de Música (ABM), completou 90 anos de idade com uma vitalidade criativa impressionante. Reconhecida internacionalmente como a grande pioneira da música eletroacústica no Brasil, Jocy segue na ativa com uma agenda de produções inéditas, lançamentos e homenagens que reafirmam seu papel transgressor na arte contemporânea e no conceito que define como “pós-ópera”.
Novas produções e estreias em São Paulo
Diferente de efemérides tradicionais voltadas apenas ao passado, as comemorações dos 90 anos de Jocy de Oliveira priorizam suas criações atuais. A agenda festiva ganha destaque no dia 6 de junho, na Estação Motiva Cultural (anexa à Sala São Paulo), com um concerto promovido pela Fundação OSESP retrospectivo das peças de câmara “Naked Diva”, “For Cello” e “Estória IV”. Para dar vida ao repertório híbrido — que mescla sonoridades orgânicas a recursos tecnológicos —, o palco receberá um grupo de solistas de destaque, formado pelas sopranos Gabriela Geluda e Cláudia Alvarenga, o violoncelista William Teixeira, a violonista eletrônica Ana de Oliveira, o baixista elétrico Dodo Ferreira, o percussionista Eduardo Gianesella e o especialista em meios eletroacústicos Marcelo Carneiro.
Na sequência, o público acompanhará a estreia mundial do documentário “Universo Circular – Jocy de Oliveira”. Dirigido por Dácio Pinheiro em coprodução com o SescTV, o longa-metragem mergulha na rica iconografia, nos processos de escrita e no impacto estético promovido pela compositora ao longo de sete décadas de carreira. Antes da exibição do filme, será realizado um bate-papo ao vivo unindo o diretor e a própria Jocy de Oliveira, permitindo uma interação direta com a plateia sobre os bastidores da obra e suas visões sobre a ópera contemporânea.
O tributo institucional da Osesp se estende também para além da noite do especial. Como parte de sua agenda de fomento à criação, a Osesp encomendou diretamente à compositora uma nova síntese de sua consagrada ópera multimídia “Inori”, de 1993. Intitulada “Hieródula”, a nova pocket ópera de 30 minutos de duração fará sua estreia sob a regência do maestro Thomas Blunt. A performance cênica, que conta com figurinos assinados por Jefferson Miranda, será defendida pelos solistas Débora Neves (soprano coloratura), Luciana Costa e Silva (meio-soprano), Rafael Tomás (baixo), ao lado do Coro da Osesp e do grupo instrumental Percorso Ensemble.
Estreia de nova ópera em outubro
O ponto alto das produções atuais será a estreia de sua nova ópera, intitulada “Medeia e o direito de ser diferente”, programada para entrar em cartaz a partir do dia 30 de outubro no palco do Theatro Municipal de São Paulo. A obra dialoga com sua pesquisa recente sobre som, imagem e reflexão política, sucedendo seu último grande projeto, “Realejo de vida e morte”.
Nascida em Curitiba em 11 de abril de 1936, Jocy de Oliveira construiu uma sólida carreira internacional como solista, tendo tocado sob a regência do próprio Igor Stravinsky e estreado peças de gênios como Luciano Berio, Olivier Messiaen e Iannis Xenakis. Ela foi a primeira compositora nacional a escrever, roteirizar e dirigir as próprias óperas, rompendo barreiras de gênero e formato ao unir música sinfônica com tecnologia, teatro e instalações eletrônicas. Sua contribuição histórica foi recentemente homenageada também pelo ciclo institucional de debates dos Encontros ABM.
