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50 anos do Projeto Bandas da Funarte, por Celso Woltzenlogel

Iniciado em 1976 pela Funarte, o Projeto Bandas cadastrou 1.500 grupos, distribuiu 5 mil instrumentos e formou mestres em todo o Brasil, celebrando agora meio século de história

50 anos do Projeto Bandas da Funarte, por Celso Woltzenlogel
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Há exatos 50 anos, em 1976, nascia no Instituto Nacional de Música da Funarte, o Projeto Bandas que tanto contribuiu para as bandas de música civis de nosso país. Eu tive a sorte de estar envolvido nesse projeto quando o Maestro Marlos Nobre, diretor do Instituto Nacional de Música, (INM) me convidou para coordenar esse projeto, que tinha como objetivo principal conhecer a realidade das bandas de música civis existentes no País, suas dificuldades e seus problemas, com o propósito de apoiá-las e estimular também a formação de novos desses grupos musicais.

O Projeto foi estruturado com vistas às seguintes metas:

  • Cadastramento de todas as bandas civis brasileiras;
  • Incentivar o aperfeiçoamento dos instrumentos de sopro de fabricação nacional;
  • Distribuição de instrumental às bandas mais necessitadas;
  • Realização de concursos de bandas;
  • Realização de cursos de reciclagem para mestres de Banda;
  • Realização de cursos de reparação e conservação de instrumentos de sopro e
  • Edição de músicas para bandas.

Com a colaboração dos principais órgãos de comunicação dos governos federal, estaduais, municipais e de entidades particulares, o INM iniciou o cadastramento das bandas, às quais foi enviado um questionário específico para efeito de análise e estudo da situação de cada uma e das providências adequadas a serem tomadas. Esses questionários, uma vez preenchidos, deram ao projeto condições de elaborar um histórico completo de cada banda.

Ao longo dos anos foram cadastradas cerca de 1.500 bandas verificando-se uma maior concentração nos estados de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Bahia. O estudo em profundidade a que procedeu o INM, com base nas informações fornecidas pelas bandas de música no questionário de cadastramento, evidenciou, desde logo, que o grande problema para a maioria consistia na falta de instrumental ou nas precárias condições de uso dos instrumentos de que dispunham. Mas havia outro aspecto importante a considerar: o instrumento de sopro de fabricação nacional, pelos problemas que apresentava, merecia severas restrições por parte dos músicos, o que desaconselhava qualquer investimento para sua aquisição.

Para sanar a dificuldade, entramos em entendimento com a indústria especializada no sentido da melhoria da qualidade desses instrumentos. Com a colaboração de vários músicos profissionais do Rio de Janeiro e de São Paulo, que submetiam sistematicamente os instrumentos a testes de qualidade, e o empenho da própria indústria, que procurou melhorar sua tecnologia e seus equipamentos, o padrão dos instrumentos melhorou paulatinamente, justificando, assim, sua aquisição.

Iniciou-se, então a distribuição dos instrumentos de acordo com os critérios estabelecidos. Cerca de oitocentas bandas de música foram contempladas em um total aproximado de 5 mil instrumentos.

As Indústrias Weril e Galasso localizadas em São Paulo foram beneficiadas pelo projeto. Essa doação foi muito importante, pois incentivou as bandas a se aperfeiçoarem e isso pode ser visto logo no primeiro concurso que realizamos em convênio com a Rede Globo de Televisão: Campeonato Nacional de Bandas de Música, com prêmios em dinheiro, além da distribuição de novos instrumentos.

Durante os dois campeonatos realizados em 1977 e 1978 foram envolvidos 1440 músicos de todo o País. No primeiro campeonato, envolvendo 677 músicos de 17 Estados e um Território, o primeiro lugar coube à Corporação Musical Maestro Francisco Russo, de Araras, São Paulo. No segundo, envolvendo 763 músicos e igualmente 17 Estados e um Território, o vencedor foi a Banda Sinfônica da Escola de Música de Brasília.

Os Cursos de Reciclagem para Mestres de Banda foram idealizados para dar aos mestres de banda do interior a oportunidade de aprofundarem seus conhecimentos, já que na maioria das vezes eram autodidatas. Desde a época de sua implantação em fins de 1979 até janeiro de 1986 foram realizados um total de 22 cursos nos Estados da Bahia, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Paraná, Pernambuco, Santa Catarina, São Paulo e Alagoas.

Outra realização importante foram os Cursos de Reparação e Conservação de Instrumentos de Sopro implantados em fins de 1984 com o objetivo de dar, principalmente aos músicos de banda, noções de manutenção e reparo dos instrumentos de sopro. Durante os dois anos seguintes foram realizados cinco cursos nos Estados do Espirito Santo, Paraná (Curitiba e Londrina), Pará e Alagoas.

Mais uma grandiosa realização foi o Primeiro Inventário Nacional de Música para Banda que organizamos com a participação do Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Uma comissão de altíssimo nível composta de compositores, maestros e instrumentistas renomados selecionaram 80 composições entre os 1.500 participantes do certame, inscritas por cerca de 250 bandas de todo o país. As obras selecionadas que fizeram parte do Repertório de Ouro das Bandas de Música do Brasil receberam prêmios em dinheiro, troféus e aos poucos foram publicadas pelo Pró-Memus, Projeto Memória Musical da Funarte. Lamentavelmente, por falta de recursos financeiros apenas 10 por cento das obras selecionadas puderam ser editadas.

Em 1990, as instituições federais ligadas à arte foram extintas, sendo criado o Instituto Brasileiro de Arte e Cultura –IBAC. E com isso, as ações das fundações extintas foram interrompidas. Porém, o Projeto Bandas foi retomado, em novembro de 1992, pela então Servidora e musicista Valéria Ribeiro Peixoto, Coordenadora dos Cursos de Formação, do IBAC, sendo nomeada a servidora Rosana Lemos, como gestora do referido Projeto. Os cursos de capacitação individuais foram retomados a partir do ano de 1993 a 1999. A partir do ano de 2000, foi implementado o Painel Funarte de Bandas de Música, com os cursos de instrumentos de sopro, percussão, percepção musical, regência/prática de conjunto, arranjos, reparo e manutenção de instrumentos de sopro, que eram ministrados simultaneamente em determinada cidade/unidade federativa, cuja inscrição era aberta para todo o país, permitindo assim, o intercâmbio entre os músicos e o corpo docente, dos cursos realizados.

A distribuição de instrumentos de sopro foi retomada a partir do ano de 1994 até o ano de 2020, de acordo com a disponibilidade orçamentária. Foi também retomada a Edição de Partituras, assim como o Guia Prático para o Regente de Bandas.

A FUNARTE foi reestruturada em agosto do ano de 2025, sendo a Coordenação de Programas para a Música do Centro de Música da Funarte/MinC a responsável pelas ações direcionadas às bandas de música. Para encerrar, queria relembrar que, talvez por dificuldade de sobrevivência, seja por razões financeiras ou escassez de músicos, sempre houve uma grande rivalidade entre as bandas de música do interior.

No Estado do Rio de Janeiro, por exemplo, ficaram célebres as desavenças entre as bandas da região de Campos. Os associados, realmente fanáticos, chegavam ao extremo de não cumprimentar os filiados de outras corporações e de ver com maus olhos casamentos com membros de família da banda rival. Nas festas pátrias, as bandas desfilavam por itinerários previamente estabelecidos para evitar o confronto quase sempre hostil.

Uma das passagens mais pitorescas vividas em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, relatada pelo saudoso maestro e compositor Joaquim Naegle, se refere a uma retreta reunindo as duas bandas da cidade: a Campesina e a Euterpe. Tocaram até meia noite, mas nenhuma das duas queria sair do coreto. A retreta só acabou com a intervenção do delegado de polícia que, sabiamente, resolveu o impasse. As bandas passaram a tocar alternadamente e ao final de cada música retirava-se um músico. E assim foi até o raiar do dia quando, não havendo mais músicos suficientes para formar o conjunto, encerrou-se a retreta.

 

 

Celso Woltzenlogel
Coordenador do Projeto Bandas (1976-1994)

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