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Os 90 anos de Manuel Veiga, por Ilza Nogueira

A homenagem que a Academia Brasileira de Música presta ao confrade Manuel Veiga, por ocasião dos seus 90 anos de vida, é louvável e muito merecida.

Os 90 anos de Manuel Veiga, por Ilza Nogueira
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A homenagem que a Academia Brasileira de Música presta ao confrade Manuel Veiga, por ocasião dos seus 90 anos de vida, é louvável e muito merecida. Homenagear é valorizar; e nosso homenageado incorpora múltiplas personagens acadêmicas de grande valor: o pianista titulado pela Juilliard; o etnomusicólogo formado com distinção acadêmica na UCLA; o pesquisador da modinha brasileira e de importantes projetos relacionados à cultura musical da Bahia; o consultor das agências de fomento que estimulou e fez proliferar a capacitação do músico brasileiro no exterior; e o Professor Emérito da escola de Música da Universidade Federal da Bahia, onde exerceu o magistério desde 1966, tendo reconhecida pelo Conselho Universitário, na ocasião dos 40 anos de seu ingresso na UFBA (2007), a “valiosa contribuição prestada à instituição, com elevado espírito de colaboração, cidadania e visão acadêmica”.

Foi justamente esse “espírito de colaboração e cidadania” que o fez administrador daquela escola em duplo mandato, no conturbado período político entre 1968 e 1975 e numa fase administrativa complexa, pois justamente nessa época, como efeito da Reforma Universitária de 1968, as unidades de Música, Teatro e Dança fundiram-se na “Escola de Música e Artes Cênicas”. Muitos outros cargos administrativos enfrentou o professor Veiga naquela escola, aliando firmeza a serenidade e ponderação: Chefia de departamento, Coordenação de colegiado de curso, Membro de Conselho Universitário e de Conselho Editorial.  Em todos eles, sua mencionada ‘visão acadêmica’, sempre voltada à perspectiva de uma formação culturalmente contextualizada, combateu incansavelmente a ausência de políticas culturais nas esferas administrativas superiores da educação e da cultura.

Durante sua longa permanência no Conselho de Cultura do Estado da Bahia (1971-1999), o professor Veiga integrou a Câmara de Artes e Patrimônio Histórico, presidindo-a já no início de seu mandato e, consequentemente, tornando-se membro nato do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia – IPAC e do Instituto de Radiodifusão Educativa do Estado da Bahia – IRDEB. Sua efetiva atuação naquele conselho destacou-se pela postura crítica tenaz ao conceito oficial de cultura e à valorização desmedida dos aspectos econômicos e mercadológicos da cultura. Seu notável interesse pelos mecanismos de proteção à memória das tradições culturais, ao lado de sua incansável luta pela formulação de um planejamento cultural significativo para o país atrelado aos processos educativos foram, certamente, as significativas razões que o levaram a receber da Secretaria de Educação e Cultura do Estado da Bahia, em 1986, a Medalha do Mérito Castro Alves. Segundo o próprio Veiga (Curriculum Vitae), foi aquele Conselho de Cultura que despertou o seu interesse pela etnomusicologia:

“Interesse pela Etnomusicologia despertado enquanto membro do Conselho de Cultura, inspirado pelo medo do poder e pelo reconhecimento dos paradoxos e injustiças embutidos na cultura oficial brasileira, no seu entendimento e trato da cultura como mera erudição, sem base antropológica, qualquer que seja. Tornou-se meta estudá-la, a Antropologia da Música, implantá-la no Brasil como disciplina científica e aplicá-la no estudo da música brasileira”. (In Stevenson et alii, 2004, p. 26)

Em 2006, já distante dos seus anos de conselheiro e consultor para assuntos de educação e cultura, no seu último artigo publicado (tive a honra dessa publicação, quando Editora do periódico Claves), o incansável mestre ainda surra a mesma “tecla”, já em tom de desespero:

Política cultural no Brasil tem sido não se ter política alguma, à exceção dos períodos de repressão. Atualmente confundimos mercado cultural com política cultural. A ênfase em cadeias produtivas e em câmeras setoriais está mais para a produção de batatas e cebolas do que para uma proposta de desenvolvimento cultural. Esse desenvolvimento cultural mínimo poderia ser compreendido em termos de uma educação continuada das pessoas buscando pô-las em contato com as linguagens de seu tempo e com um processo de reciclagem de técnicas e habilidades que lhes permitissem fazer face à mudança acelerada de nossos dias sem perda da identidade, sem perda da alma”. (VEIGA 2006, p. 15-16)

Não somente o Estado da Bahia e a Universidade Federal da Bahia creditam méritos acadêmicos ao professor Veiga. Todas as instituições que desenvolvem programas de pós-graduação e pesquisa em Música reconhecem o seu empenho no sentido do fortalecimento da área nas agências brasileiras de fomento à capacitação de recursos humanos para pós-graduação e pesquisa em música. Manuel Veiga foi o primeiro docente de instituição de ensino brasileira a obter o doutorado acadêmico em Música – Etnomusicologia – com subsídio do governo brasileiro (Fundação CAPES), em 1981. A partir de seu retorno ao Brasil em 1982, ele iniciou seu mandato de representante da área de Artes na CAPES, sendo responsável pelo grande incentivo à formação doutoral em Música, que só podia ser realizada no exterior. No Comitê Assessor de “Linguística, Letras e Artes” do CNPq, ele atuou como representante da subárea Música durante os anos 1984 a 1988. Naquela época, o investimento em doutoramentos no exterior para a Música começava a sinalizar positivamente: os primeiros músicos doutores retornavam às instituições de seus vínculos profissionais, e as primeiras bolsas de pesquisa eram atribuídas à área de Música, tendo o professor Veiga como seu patrono. Essas atuações que refletem sua notoriedade acadêmica em nível nacional durante quase toda a década de 1980, pavimentaram o caminho para a inclusão da Música no segundo pilar da universidade brasileira: o da pesquisa. Até então, institucionalmente falando, a nossa área se fazia reconhecer principalmente nos âmbitos do ensino e da extensão, muito embora já houvesse pesquisadores ativos (lembro Régis Duprat e José Maria Neves) e nossa primeira associação científica: a Sociedade Brasileira de Musicologia (SBM), fundada em 1981.

Por ocasião dos 70 anos de Manuel Veiga, a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música homenageou-o publicamente durante o XIII Congresso Anual (Belo Horizonte, 2001), reconhecendo sua valiosa contribuição na fundação e no crescimento da ANPPOM. Tive a honra de escrever e pronunciar aquela homenagem, quando refleti que a enumeração de feitos acadêmicos, títulos e prêmios não seria a melhor justificativa para que o corpo acadêmico mais significativo da música no país rendesse homenagem ao Professor Veiga. Considerei que estariam no reduto das suas ideias as mais fortes razões para o aplaudirmos, e citei alguns fragmentos de importantes comunicações suas proferidas nos eventos da área na década de 1990, onde se encontram reflexões sobre música, cultura e educação que não deveriam ser esquecidas, mas seguidas. Assim ilustrei as múltiplas facetas intelectuais do homenageado.

Nesta homenagem, gostaria de atualizar essa ilustração com trechos de depoimentos de colegas, amigos e ex-alunos do Professor Veiga, que se encontram publicados em um livro-tributo organizado pelo professor Pablo Sotuyo Blanco e publicado pelo Programa de Pós-Graduação em Música da UFBA em 2004: “Por uma etnomusicologia brasileira: Festschrift Manuel Veiga”. A substância maior do livro é a sua polpuda tese de doutoramento na UCLA (Toward a Brazilian Ethnomusicology: Amerindian Phases, 1981). Uma prestigiosa apresentação biográfica e apreciação resumida daquele trabalho acadêmico, escrita pelo seu orientador Robert M. Stevenson, introduz vários depoimentos, dentre os quais o meu de 2001 (“70 Anos: loas, louvores, bem-aventuranças e benedições”). À abertura do Dr. Stevenson, seguem-se novas loas e louvores que passo a transcrever e comentar seletivamente em breves recortes.

Em “A peleja de Manuel Veiga e a vitória da Etnomusicologia” (2002), Kilza Setti afirma:

“Se no passado tivemos Mário de Andrade, Luís Heitor, Padre Diniz, Gallet, Roquette Pinto, Desidério Aytai e tantos, tantos outros, temos no presente Manuel Veiga, como inspirador e operário nas lides para a legitimação e oficialização da Etnomusicologia na universidade brasileira”.

A afirmação vem respaldada com um minucioso relato que a autora organiza em “sinais” da presença de Manuel Veiga, pontuando especialmente sua atuação nas Jornadas de Etnomusicologia (1989 a 1993) e Simpósios internacionais (1991, 1993), eventos idealizados e coordenadas por ele. Kilza lembra oportunamente sua corajosa proposta da criação de uma associação de Etnomusicologia, já no ano 1992, renovada nos anos subsequentes, sempre com adiamentos alheios à vontade de Veiga. Como relata Kilza, “Finalmente, após tantas tentativas anteriores, os acontecimentos deslocam-se, e a ABET não nasce em Salvador, como se esperava, mas – como um rio que se afasta do mar – nasce no Rio de Janeiro, durante o 36º Encontro do ICTM”.

Em “Manuel Veiga: a metamorfose pensante”, a professora Angela Lühning chama atenção para as “ideias provocantes e inovadoras” do primeiro etnomusicólogo brasileiro, e também registra sua luta pioneira pela implementação da Etnomusicologia como área de estudos em programas de pós-graduação, valorizando especialmente os importantes eventos idealizados e coordenados por Veiga nos primeiros anos do Mestrado em Música da UFBA, no sentido de dar visibilidade e consistência àquele programa: os Simpósios Brasileiros de Música, as Jornadas de Etnomusicologia. Ela também atenta para o fato de que, avançando na idade e contrariando as previsões habituais, “Veiga demonstrou uma surpreendente força e até capacidade de rejuvenescer, […] dedicando-se integralmente às suas pesquisas, às disciplinas a serem ministradas, aos alunos a serem orientados, além de questões de política universitária, de relevância social e de saúde pública, como a da poluição sonora.” Seu louvor continua exaltando sua “extrema atualização em novas tendências, vertentes e teorias da área, sempre em busca de um acompanhamento mais pleno e adequado às questões em constante processo de transformação e mudança.” Daí vem a alcunha que intitula seu tributo, “metamorfose pensante”, especificamente quando afirma: “Veiga está se metamorfoseando, e ao incrível que possa parecer, cada dia ficando mais etnomusicólogo no sentido mais amplo da palavra, mais inteirado e mais identificado com a complexidade da área, ou talvez melhor, da forma de enxergar e interpretar as tantas músicas, especialmente as do Brasil”.

Foi Jamary Oliveira quem proferiu a saudação a Manuel Veiga na ocasião em que a UFBA lhe outorgou o título de Professor Emérito, em 1996. Da sua fase de pianista virtuoso, Jamary recorda tê-lo ouvido interpretar o Rude Poema de Villa-Lobos: “um pianista técnica e musicalmente surpreendente”.  Posteriormente, na troca da forma de expressão rotineira – as cordas do piano pelas cordas vocais (que de tanto uso enrouqueceram sua voz macia) – Jamary ressalta o ganho para a Universidade Federal da Bahia. Os encargos administrativos de Veiga se proliferaram e a instituição se tornou pioneira na implantação da pós-graduação em Etnomusicologia no país, liderando a área com os eventos organizados e coordenados por ele: as já mencionadas Jornadas de Etnomusicologia e os Simpósios Brasileiros de Música, impulsionados pelo professor “paciente, insistente, crítico, obstinado, tenaz, prolixo”. Afinal, quem pode ser pioneiro em alguma coisa sem essas qualidades?

Deixo agora a palavra com dois ex-orientandos do professor Veiga, Sônia Chada e Agostinho Lima, co-autores do texto “Manuel Veiga à janela de minh’alma” (Stevenson et alii, 2006, p. 41-45). Segundo eles, o “urso de olhos verdes” (como afetuosamente o apelidaram), “homem sereno, amigo, meio bonachão, de riso fácil e sonoras gargalhadas”, foi um professor que estimulava o sujeito a se descobrir capaz de fazer o que necessitava; que o fazia refletir, incentivando a expor e a defender ideias de forma clara e sólida, sendo persistente e incansavelmente empenhado no desenvolvimento da consciência crítica. Afeito a uma boa conversa, bom contador de histórias e estórias, era também um professor desobediente aos planos de curso: “os conteúdos propostos para cada aula nunca foram uma camisa de força para ele, mas, sim, um ponto de partida para uma profícua interrelação com os outros e com as outras áreas de conhecimento, e um ponto de chegada no seu desvelamento em algo mais complexo que uma simples unidade isolada de conhecimento”.

Na Academia Brasileira de Música, Manuel Veiga ocupa a cadeira 31, tendo substituído Ernst Widmer, seu parceiro na Universidade Federal da Bahia não obstante a grande diferença de personalidades. Mútuo e grande foi o respeito entre ambos os mestres alternando-se nos afazeres administrativos e na liderança da instituição, cada um ao seu estilo e em sua capacitação.

Aos 90 anos, Manuel Veiga, primeiro aluno matriculado nos Seminários Livres de Música em 1954, é hoje a memória viva da Escola de Música da UFBA, graças a um cérebro excepcional (HD in natura). Quem quiser conhecer bem essa história, leia seu ensaio “Cantos de Passarinhos” (Veiga 2004), escrito para o cinquentenário daquela escola, uma narrativa na primeira pessoa, em que o narrador-personagem desempenha magistralmente os papeis de informar, interpretar e avaliar. Contudo, Veiga não se limita ao olhar retrógrado e, ao contrário do que certa vez lhe disse Jamary Oliveira – “musicólogos olham para trás” – ele extrapola a história.  Se a expectativa é a de que seu leitor seja músico, o educador in essentia toma ao musicólogo a palavra, passando a discorrer sobre o músico, a música e a educação musical, sempre no contexto da cultura, da ética. Devo dizer que nunca li uma ‘história de amor’ mais bonita.

Há vinte anos terminei meu primeiro tributo a Veiga louvando “seu incondicional amor pela Música, pela Educação, pelo Brasil, pela Bahia, e por todos nós que formamos sua grande família, e que deitamos no berço esplêndido do seu grande coração” (Stevenson et alii, 2004, p. 34). Hoje, não encontrando palavras mais significativas para substituir estas, quero apenas acrescentar: “Ó mestre amado, idolatrado, Salve! Salve!”

Por Ilza Nogueira

 

Referências

Stevenson, Robert, et alii. Por Uma Etnomusicologia Brasileira: Festschrift Manuel Veiga, Pablo Sotuyo Blanco, org. Salvador: Programa de Pós-Graduação em Música da UFBA, 2004.
VEIGA, Manuel. “Cantos de Passarinhos”. Disponível em: http://www.nemus.ufba.br/artigos/cantos.htm#_ftn1. Acesso em 1º de maio d 2021.
VEIGA, Manuel. “Dicionários musicais brasileiros e a perplexidade das províncias”. Claves, periódico do Programa de Pós-Graduação em Música da UFPB, nº 2, nov. 2006, p. 14-30.

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